segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

A brisa errada de The Last of us - Série de sucesso mostra alguns erros científicos

 






    Desde a revolução agrícola os fungos estão presentes na produção de alimentos para a humanidade. Com o uso de leveduras, fungos unicelulares, principalmente da espécie Saccharomyces cerevisiae, humanos foram capazes de fermentar grãos e cereais levando a um incremento nutricional desses alimentos, além de melhorar, muitas vezes, o gosto também. Entre o trigo e o pão, qual é o que tem mais calorias e melhor gosto?
    Além disso não podemos esquecer que a história da medicina do século XX passa pela descoberta da penicilina, antibiótico isolado, do fungo Penicillum notatum, pelo cientista escocês Alexander Fleming em 1928. A penicilina só começou a ser produzida em larga escala em 1938, fato que parece ter sido determinante para a vitória Aliada na 2ª Guerra mundial, já que naquela época mais da metade dos soldados morriam por infecções bacterianas decorrentes dos ferimentos “ganhos” em batalhas.




    E a penicilina foi somente o primeiro de uma série de antibióticos isolados das mais variadas espécies fúngicas. Outro desses, por exemplo, esteve no centro de uma polêmica ultimamente: a azitromicina. Ou seja, não há dúvidas de que fungos podem ser aliados importantes para a humanidade, ainda mais pensando que muitos desses seres são, também responsáveis pela decomposição de corpos de outros seres, tornando a ciclagem dos elementos necessários a vida algo possível. Mas será que eles podem ser vilões?
    Claro! Quando eles provocam doenças! E há uma infinidade de doenças causadas por esses seres tão diversos da gente que são colocados em um mundo próprio, ou melhor, num reino particular: o reino Fungi. E se um fungo pudesse causar uma pandemia, igual a vista nos últimos 2 anos? Bem, essa é a premissa do game aclamadíssimo “The Last of Us”. Agora também série em Live action pela HBO max. A história acompanha os personagens Ellie e Joel em um mundo destruído após uma pandemia de uma doença fúngica.
    Essa doença torna os hospedeiros, humanos que carregam o fungo, em verdadeiros zumbis agressivos e sedentos por sangue. Isso tudo por controlar o cérebro dos infectados, como é explicado na série. Mas o foco da história parece ser a relação entre os personagens, sobretudo a relação construída entre Ellie e Joel. “Parece” por que falhei como nerd e ainda não joguei o game, embora tenha gostado muito do primeiro episódio da série.    De qualquer forma, estou aqui para dizer, como biólogo, que a série começou errando na sua base biológica. E essa é uma ótima oportunidade para aprender.
    Prometo não estragar a experiência de ninguém com esse texto! O episódio começa com um talk show com a entrevista de um epidemiologista (especialistas em distribuições populacionais de doenças) representado pelo ator John Hannah. Ele afirma que seus maiores temores são em relação a fungos já que eles produzem substâncias como a pscilocibina, ácido lisérgico e a penicilina. Essas substâncias combinadas poderiam produzir zumbis, já que as duas primeiras modificam comportamentos e a penicilina poderia impedir a decomposição do infectado.



    De fato, essas substâncias, isoladas, possuem as atividades propostas pelo personagem. Pscilocibina e ácido lisérgico são substâncias psicoativas, ou seja, alteram o funcionamento do nosso cérebro, podendo alterar a nossa percepção e a nossa personalidade. E a penicilina tem a propriedade de antibiótico e por isso poderia combater bactérias decompositoras do corpo do hospedeiro. Mas há um problema na fala do epidemiologista: ela dá a entender que essas substâncias tem essas funções e o fungo teria a intenção de infectar. Espero esclarecer isso nesse texto, tentando responder o que essas substâncias são de fato.
    Tanto a pscilocibina quanto o ácido lisérgico são agrupados em uma classe gigantesca de moléculas chamada alcalóides. Essas substâncias são caracterizadas por conterem estruturas cíclicas formadas por átomos de carbono (C) e nitrogênio (N). Os alcalóides podem ser produzidos por bactérias, fungos, animais e plantas. E a matéria-prima para essa produção são purinas (blocos que formam o DNA desses seres) e aminoácidos (unidades das proteínas). E parecem estar envolvidas em diversos aspectos da vida dos seres vivos.
    Na pele do sapo cururu (Rhinella marina), há a produção da bufotenina, um alcalóide que afugenta as aves predadoras, talvez pelo seu gosto ou por provocar qualquer outra sensação desagradável. Ainda na linha de defesa, as folhas do tabaco (Nicotiniana atennuata) produzem nicotina quando atacadas por insetos herbívoros. Ou seja, esses alcalóides estão envolvidos na defesa dos organismos. Em vegetais há outro deles bem importante: a auxina. Ela é o principal hormônio de crescimento desses organismos sendo produzido, principalmente, em brotos de galhos e ápice do caule das árvores.
    Verdade! Existem muitos alcalóides que são psicoativos poderosos. Cafeína, cocaína, morfina, mescalina, pscilocibina e ácido lisérgico são alguns alcalóides bem conhecidos, todos eles possuindo alguma ação em nosso cérebro. Mas tenha certeza que nenhum deles é produzido por plantas e fungos para controlar a mente de ninguém. É muito mais provável que eles estejam envolvidos na defesa ou ainda no crescimento desses organismos. Decidir como vamos utilizar essas substâncias, é responsabilidade só nossa!


E a penicilina Igor? Para quê fungos utilizam esse tipo de substância? Bem eles produzem antibióticos para controlar o crescimento de bactérias no seu em torno. O ambiente é hostil e cheio de competição, pelo processo de evolução tais seres desenvolveram essas substâncias para garantir sua sobrevivência. Fungos e bactérias são as principais “fontes de inspiração” para a produção de medicamentos contra infecções bacterianas. Vale ressaltar que fungos não tem a intenção de ajudar ninguém produzindo antibióticos. Ainda há mais um erro que gostaria de comentar e ele ocorre muito mais a frente no episódio.
        Em uma das cenas Joel (Pedro Pascal) e Tess (Anna Torv) entram em um prédio e se deparam com um infectado. Em um primeiro instante, parece que um fungo arrasou o rapaz! Mas com um pouco de paciência podemos ver que há formas variadas por todo o corpo do cadáver. Poderiam todas essas formas ser fases diferentes do fungo? Poderiam sim, contudo há uma explicação mais provável. Infelizmente essa explicação põe a representação do cadáver na categoria de erro, embora ela demonstre melhor o que ocorre na natureza.
        Nessa pessoa, dá para notar ao menos 4 espécies diferentes e uma delas nem é um fungo. Duas das espécies estão no grupo dos Basidiomicetos, fungos que produzem cogumelos. O Cordyceps sp., único parasita dessa lista, está classificado, atualmente, como ascomiceto – mesma família do fungo que produz o ácido lisérgico. E o intruso do grupo: um mixomiceto. Esse último está mais associado às algas unicelulares do que aos fungos de fato. Ou seja, o que vemos nesse infectado é uma associação de organismos, incluindo fungos. E esses, embora possam produzir antibióticos, podem ser bons de sociedade.



Fungos, na natureza, podem se associar a algas e produzir uma “sociedade” chamada líquen. Nela há uma troca entre as partes: enquanto o fungo garante, principalmente, água às algas, essas podem compartilhar a glicose com os fungos, e assim todos saem ganhando. Além disso, muitas plantas precisam que suas raízes estejam associadas a algumas espécies de fungos para que haja um suprimento de nutrientes, favorecendo o seu crescimento. A essas associações damos o nome de micorrizas e tais associações mostram o quanto os fungos podem ser ótimos aliados na natureza. Mas acredito que não tenha sido intenção do autor da série demonstrar isso certo?
  É óbvio que nada disso atrapalha a experiência de assistir a obra. Ao meu ver promete ser um grande sucesso da cultura pop. Além disso, essas e outras obras de ficção podem ser fontes interessantes de aprendizado. Às vezes por levantar questionamentos, outras por trazer informações acuradas e prontos para serem adicionadas à nossa base de conhecimentos. E outras vezes, por erros que, quando apontados, podem ser corrigidos e enriquecendo ainda mais o que conhecemos.
Saiba Mais: 

Lee, G., Joo, Y., Baldwin, I. T. & Kim, S.-G., 2021. Tissue-specific systemic responses of the wild tobacco Nicotiana attenuata against stem-boring herbivore attack. Journal of Ecology and Environment.

Dinis-Oliveira, R. J., s.d. METABOLISM OF PSILOCYBIN AND PSILOCIN: CLINICAL AND FORENSIC TOXICOLOGICAL RELEVANCE. Drug Metabolism Reviews.

Raven, P. H., Evert, R. E. & Eichhorn, S. E., 2001. Biologia Vegetal. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan.

Roberts, M. F. & Wink, M., 1998. Alkaloids: Biochemistry, Ecology and Medicinal Aplications.. 1ª ed. Nova Yorque: Plenum Press.














domingo, 12 de maio de 2013

Mariposa from Hell.


E aí Pessoas, como foi o final de semana?
O meu fim de semana foi muito bom. Eu estou vivendo em Itapira e aqui nós temos uma festa chamada Festa de São Benedito. Essa festa tem uma feira de barracas com muita comida típica (ou não, hahaha). Ontem, comi bolinhos de bacalhau ótimos e um acarajé muito bom. Vocês sabem o que é acarajé? Acarajé é um bolinho feito de feijão fradinho, frito em óleo de dendê, e recheado com vatapá. Ele é de origem africana (era um alimento oferecido para os orixás), mas foi difundiu para o Brasil e hoje é tido como uma comida tipicamente baiana.
Por falar nisso, a Bahia tem haver com o assunto desse post. Nessa semana, o secretário estadual de Agricultura da Bahia declarou que as plantações de algodão de seu Estado sofreram um ataque bioterrorista. Como assim? Vou explicar... Bem, as plantações de algodão da Bahia estão sofrendo o ataque pela larva de uma de mariposa de nome científico Helicoverpa armigera . Muitas espécies de borboletas e mariposas (insetos da Ordem dos Lepidópteros) se alimentam somente nessa fase e por isso devem acumular muita matéria para sustentar suas vidas adultas (fase reprodutiva). Dessa forma, essas criaturas em suas fases larvais comem muito, muito e muito, algumas chegam a dobrar de peso a cada dia de  vida. E adivinhem do que elas se alimentam? De plantas!!!! Por isso elas podem produzir grandes estragos em lavouras e são causadoras de grandes prejuízos para os agricultores.
Então por que o secretário da Agricultura da Bahia acha que essa praga seria obra de bioterrorismo? Motivo 1: Essa espécie não é brasileira, ela está distribuída pela Austrália, África e Europa. Por isso fica a pergunta como ela chegou aqui? Bem muitas espécies animais/ vegetais estrangeiras chegaram aqui ao Brasil desde o seu descobrimento e nem por isso concluímos que somos alvo de bioterroristas. Muitas espécies chegam aqui de "carona" em navios, aviões e outros transportes intercontinentais, por que isso não pode ter ocorrido com essa espécie? Motivo 2: Essa é uma espécie considerada praga quaterentenária A1... Mas o que diabos isso significa Igor???? Você pode me falar???? Bem pragas quarentenárias A1 são pragas erradicadas do país mas que se reintroduzidas podem causar prejuízos econômicos gigantescos (mas é isso que uma praga faz). Então ela foi reintroduzida? É o que parece... e isso é maus, pois essa espécie é migratória e pode se instalar em outros Estados produtores de algodão. E o que eu tenho haver com isso Igor? Sabe aquela camiseta da Hering que você gosta muito? Pois é, pode ficar muito mais cara do que ela já é. Além disso, grandes plantações de uma cultura pressupõe  pouca variação genética entre as plantas o que torna o nosso algodão mais suscetível às pragas. Mas Igor é só colocar mais defensivo agrícola e matar tudo esses animaizinhos rastejantes. Minha opinião: É mesmo!!! Isso aumenta os casos de poluição da nossa água com esses defensivos além de causar um aumento no custo de plantação e isso vai ser repassado para você com certeza e isso encareceria ainda mais o custo de vida no nosso "querido" país. Na minha opinião, não é bioterrorismo pois um bioterrorista é um terrorista e esses caras querem apenas ganhar notoriedade para as suas causas (e até agora ninguém se diz autor desse ato). Essa reintrodução só é um efeito do fluxo humano entre os continentes e talvez por isso seja impossível irradicar essas pragas sem uma política global unificada. E convenhamos, UNIÃO não é uma característica que define a humanidade contemporânea. Bem, espero que vocês tenham gostado do texto, por favor comentem, reclamem, contestem. Os links consultados estão aí embaixo.
http://atarde.uol.com.br/bahia/materias/1503106-ataque-de-lagarta-pode-ser-bioterrorismo-diz-secretario
http://www.pragas.com.br/poscolheita/pragasq/pragasq.php
http://en.wikipedia.org/wiki/Helicoverpa_armigera
http://helicoverpa.org/

http://www.faunaeur.org/full_results.php?id=449072
Até o próximo texto.